A PROMESSA DE BELEZA
Botequeiro
afamado, Beleza não perdia tempo. Logo cedo já tomava uma no bar de Dedé para
clarear as vistas e trabalhar melhor, na hora do almoço uma dose só, para abrir
o apetite, e no final da tarde a parada era obrigatória, que ninguém é de
ferro! Mas a vida de Beleza piorou quando dona Arlinda lhe sugeriu, devagar e
bem baixinho, pois agora era para valer, que, ou parava de beber ou lhe cortava
o saco quando estivesse dormindo. Beleza então prometeu, de coração, diante de
Deus e de Arlinda com uma faca na mão, que nunca mais botaria o álcool na boca.
Quinze dias depois, uma eternidade, tem um feriadão para atazanar a vida de
Beleza. Não ia ser nada fácil, nada fácil. Ficar na rua bestando em feriado não
tem graça nenhuma. O povo some. Viaja ou fica em casa dormindo até meio dia.
Nem em dia santo Dona Arlinda facilitava a vida de Seu Beleza.
O
boteco de Dedé já estava aberto, pois vendia pão e era famoso por dar o troco de
pinga para quem não levasse o dinheiro contado.
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Bom dia Seu Beleza, quebrar uma?
_
Não, parei de beber.
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Que foi? Virou crente ou está doente?
_
Ave Maria! Promessa, promessa...
Beleza
pediu um suco de limão, espremido na hora, e dava um gole entre um fuxico e
outro para ver se o tempo passava. Chegar em casa antes do almoço não era boa
ideia. Decidiu então que não gostava mais de feriado, que numa crise dessa o
governo deveria obrigar todo mundo a trabalhar até no carnaval, veja lá em
feriado besta que não serve para nada. Ficava imaginando que, se cumprisse a
promessa de não beber mais, quem sabe Arlinda não o trataria melhor. Ia fazer o
possível para ver a esposa de bom humor. Sonhou até em levar flores para ela em
um devaneio que mais parecia cena de novela mexicana. Nessas horas é que o cão
atenta. E duas comadres desbocadas, varrendo a calçada do outro lado da rua, começou
o falatório:
_
Homem é tudo igual, não vale nada. Tenho um em casa que não vale o que o gato
enterra. É o dia inteiro na rua e só chega de noite, bêbado e querendo graça.
Aquele não me engana mais, quando ele chegar vai ver a graça, cansei de ser
besta.
_
O seu pelo menos caça graça e o meu que é uma desgraça. Trabalha dia e noite e
em casa só presta para dormir. Eu é que sofro, minha filha. Não desejo essa
vida para ninguém.
Seu
Beleza, trazido de volta a realidade, resolveu quebrar a promessa:
_
Bote uma para mim seu Dedé.
_
Ué, e a promessa?
_
Essa é a do santo, Deus perdoa. E virou em um gole só, arrepiando o braço,
imaginando acordar capado. Deus é mais!
Welington Carlos

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