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CICLO

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  Poderia ser um domingo qualquer, com seu tédio habitual, mas o mundo da exposição não me deixa enganar, me fazendo lembrar a cada frase, a cada imagem, a todo instante, que perdi o que serei. Meu pai se foi enquanto meu filho vem, como o sol que se põe para que se vejam as estrelas. É dia, é noite e é dia novamente, num eterno ir e vir de vidas e sensações. O mundo se abre e se fecha. Um dia apenas, inúmeros propósitos. É a tristeza e a alegria que vai e que vem a cada segundo. Nada é eterno, nem a dor, nem o sorriso, nem o doce ou o amargor.   Somos o bem e o mal: é o ciclo constante, que nada deve e que não espera por ninguém. O mundo não pisca o olho com a sua dor, sua riqueza ou sua miséria, então aproveite o que tem. Toque o rosto do seu pai e brinque com seu filho, não seja medíocre e construa sua memória, pois só isso fica; apenas sentimentos; sensações. O resto é vazio; o resto é resto. Não espere o amanhã para mergulhar no rio, pois, como nos ensinou Heráclito, ...

AS CURVAS DA VIDA

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  Às vezes me pergunto o que é viver de verdade. Confesso que não tenho resposta pronta que satisfaça minhas dúvidas. Mesmo assim, vasculho minha mente e busco lembranças do passado distante, tentando entender onde vivi de verdade e por que sou quem sou, fazendo papel de psicólogo de mim mesmo. Recordo-me que as regras eram muitas e sei que as segui quase sempre. Os adultos diziam para não brincar em muros, não subir em árvores e não andar no escuro. Aprendi que havia perigo de cair e havia cobras e fantasmas no escuro. Mas não foi fugindo da altura e do breu que venci meus medos. Os braços tremiam, mas eu subia nos galhos mais altos. Meu coração apertava e a barriga gelava mas, numa madrugada fria, eu andei até o escuro do quintal em busca dos fantasmas que habitavam minha mente, olhei fixamente pra o escuro e ele olhava de volta para mim e meus medos foram embora, juntamente com os fantasmas que nunca vi. Creio que demorei de crescer. Enquanto colegas de minha idade se arruma...

NO TEMPO DO SARNEY

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  Não tá fácil para ninguém, já dizia minha mãe desde o tempo do Sarney. E quando a crise atingiu o quintal, aí tudo piorou. Primeiro foi Tupi que, sem plano de saúde, desfaleceu numa ânsia de dar dó. O infeliz passava o dia inteiro na rua, mas não bulia com ninguém, era uma educação que só se vendo. Quando passava um forasteiro desassuntado dava uma carreira, mas ficava só na promessa. Latia mas não mordia. Depois foram as bichinhas. Gertrudes, coitada, que andava numa alegria danada, cheia de não me toques, ciscando e cuidando dos órfãos da finada Cocota, do nada amanheceu dura debaixo do pé de pau, de papo para o ar, uma pena de se ver. Restando a solitária Marilu. Cabisbaixa, nem parecia a Marilu velha de guerra que não deixava ninguém encostar sem antes dar um penicão. A coitada andava toda jururu, nem corria mais com ninguém. Parecia até quebranto! Minha mãe, que não é mulher de se abater facilmente, achou logo solução. Medidas drásticas haviam de ser tomadas. Chamou os m...

A PROMESSA DE BELEZA

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  Cumprir a promessa no feriado ia ser difícil. A hora de não fazer nada começava cedo e ficar em casa não era opção. Arlinda não tolerava que ninguém ficasse empatando, com tanta coisa para fazer. Feriado é dia de arrumar a casa, limpar o quintal, podar as plantas, desentupir a pia, etc, etc. Tarefa é o que não faltava. “Já muito ajuda quem não atrapalha. Vagabundo aqui não!” Tagarelava dona Arlinda, falando sozinha para todo mundo ouvir. A vizinhança tinha dó de Seu Beleza, mas também tinha de Dona Arlinda. Um era o castigo do outro desde o dia em que pisaram no altar. Mas isso é história para outro dia, o importante agora é a promessa de Beleza, que ficava cada dia mais difícil de cumprir. Botequeiro afamado, Beleza não perdia tempo. Logo cedo já tomava uma no bar de Dedé para clarear as vistas e trabalhar melhor, na hora do almoço uma dose só, para abrir o apetite, e no final da tarde a parada era obrigatória, que ninguém é de ferro! Mas a vida de Beleza piorou quando dona Ar...

DINHEIRO

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  Gosto muito de conversar. Tanto que a garganta dói quando encontro alguém que gosta de ouvir. Podem rir, mas a verdade é que sou meio tagarela. E gosto de falar de tudo. A depender de como é apresentado, qualquer assunto pode se tornar interessante. Numa dessas tagarelices me vi conversando com um bom ouvinte sobre “riqueza”. A prosa tomou esse rumo quando começamos a falar sobre nossa dificuldade em economizar algum dinheiro. Creio que somos gastadores compulsivos, ou algo parecido com isso. Não aguentamos ver a palavra PROMOÇÃO ou FRETE GRÁTIS em algum site de vendas e já estamos pensando em trocar de celular, comprar um relógio que faz ligações ou um livro ensinando como se tornar um milionário. E assim, passamos a vida no aperto e sonhando com o próximo “Black Friday”. Conversa vai, conversa vem e, numa espécie de filosofia de boteco, apesar de estarmos sóbrios, deduzimos que dinheiro não é riqueza. Talvez por termos pouco e não querer nos admitir pobres, a conclusão seja m...

A ÚLTIMA HORA

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  Quando os sinos tocam, anunciando a última despedida, o peito estremece em resposta a cada badalada. Como um eco que se repete em dor terrível, e de novo, e de novo, cada vez mais forte. Os toques fúnebres dos sinos causam a dor de um ferro quente a tocar a pele viva. O homem tenta entender a morte, como condição natural e inevitável, mas ver um pai enterrar seu filho foge de toda explicação possível. Cantos e orações não consolarão os corações em prantos, nem mitigarão a dor dos que lhe viram morrer bem antes da hora. As flores que irão lhe acompanhar em uma última jornada, ironicamente irão murchar bem antes do tempo, indicando a derradeira hora de se despedir. Em breve seu corpo não estará mais aqui e o som da terra batendo em seu caixão será a sua despedida final. Lágrimas e soluços incontroláveis formarão um misto de dor e incompreensão terrível. Por que morreste tão jovem? Perguntarão os vivos, sabendo não haver respostas certas a tamanha indagação. A vida, que se encerro...

ENFIM AGOSTO

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  ATÉ QUE ENFIM Agosto chegou. Já era mais que hora, diga-se de passagem! E começo a contar nos dedos à chegada do grande Dia (com D maiúsculo para denotar a importância de tal data). Espero que desse domingo ao outro passe bem devagar, para que eu possa saborear a espera. Como uma criança tomando um sorvete retardando a chegada na casquinha. Sei que ainda sou novo no assunto e meus direitos ainda estão germinando em um casulo especial, mas não quero perder um segundo sequer. Segundo me disse o Google, tudo começou nos Estados Unidos, lá pelo início do século XX, por uma menina chamada Sonora e logo depois se espalhou pelo país e em outras partes do mundo. O brasileiro, que não é besta, copiou a ideia lá pela década de cinquenta e criou a data comemorativa por essas bandas com objetivos comerciais. Bem! Não sei ao certo quem instituiu data tão especial nem por qual motivo, mas, se está na lei, exijo meus direitos. A começar quero um café da manhã sortido e recheado, com bolo ...