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Mostrando postagens de agosto, 2021

CICLO

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  Poderia ser um domingo qualquer, com seu tédio habitual, mas o mundo da exposição não me deixa enganar, me fazendo lembrar a cada frase, a cada imagem, a todo instante, que perdi o que serei. Meu pai se foi enquanto meu filho vem, como o sol que se põe para que se vejam as estrelas. É dia, é noite e é dia novamente, num eterno ir e vir de vidas e sensações. O mundo se abre e se fecha. Um dia apenas, inúmeros propósitos. É a tristeza e a alegria que vai e que vem a cada segundo. Nada é eterno, nem a dor, nem o sorriso, nem o doce ou o amargor.   Somos o bem e o mal: é o ciclo constante, que nada deve e que não espera por ninguém. O mundo não pisca o olho com a sua dor, sua riqueza ou sua miséria, então aproveite o que tem. Toque o rosto do seu pai e brinque com seu filho, não seja medíocre e construa sua memória, pois só isso fica; apenas sentimentos; sensações. O resto é vazio; o resto é resto. Não espere o amanhã para mergulhar no rio, pois, como nos ensinou Heráclito, ...

AS CURVAS DA VIDA

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  Às vezes me pergunto o que é viver de verdade. Confesso que não tenho resposta pronta que satisfaça minhas dúvidas. Mesmo assim, vasculho minha mente e busco lembranças do passado distante, tentando entender onde vivi de verdade e por que sou quem sou, fazendo papel de psicólogo de mim mesmo. Recordo-me que as regras eram muitas e sei que as segui quase sempre. Os adultos diziam para não brincar em muros, não subir em árvores e não andar no escuro. Aprendi que havia perigo de cair e havia cobras e fantasmas no escuro. Mas não foi fugindo da altura e do breu que venci meus medos. Os braços tremiam, mas eu subia nos galhos mais altos. Meu coração apertava e a barriga gelava mas, numa madrugada fria, eu andei até o escuro do quintal em busca dos fantasmas que habitavam minha mente, olhei fixamente pra o escuro e ele olhava de volta para mim e meus medos foram embora, juntamente com os fantasmas que nunca vi. Creio que demorei de crescer. Enquanto colegas de minha idade se arruma...

NO TEMPO DO SARNEY

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  Não tá fácil para ninguém, já dizia minha mãe desde o tempo do Sarney. E quando a crise atingiu o quintal, aí tudo piorou. Primeiro foi Tupi que, sem plano de saúde, desfaleceu numa ânsia de dar dó. O infeliz passava o dia inteiro na rua, mas não bulia com ninguém, era uma educação que só se vendo. Quando passava um forasteiro desassuntado dava uma carreira, mas ficava só na promessa. Latia mas não mordia. Depois foram as bichinhas. Gertrudes, coitada, que andava numa alegria danada, cheia de não me toques, ciscando e cuidando dos órfãos da finada Cocota, do nada amanheceu dura debaixo do pé de pau, de papo para o ar, uma pena de se ver. Restando a solitária Marilu. Cabisbaixa, nem parecia a Marilu velha de guerra que não deixava ninguém encostar sem antes dar um penicão. A coitada andava toda jururu, nem corria mais com ninguém. Parecia até quebranto! Minha mãe, que não é mulher de se abater facilmente, achou logo solução. Medidas drásticas haviam de ser tomadas. Chamou os m...

A PROMESSA DE BELEZA

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  Cumprir a promessa no feriado ia ser difícil. A hora de não fazer nada começava cedo e ficar em casa não era opção. Arlinda não tolerava que ninguém ficasse empatando, com tanta coisa para fazer. Feriado é dia de arrumar a casa, limpar o quintal, podar as plantas, desentupir a pia, etc, etc. Tarefa é o que não faltava. “Já muito ajuda quem não atrapalha. Vagabundo aqui não!” Tagarelava dona Arlinda, falando sozinha para todo mundo ouvir. A vizinhança tinha dó de Seu Beleza, mas também tinha de Dona Arlinda. Um era o castigo do outro desde o dia em que pisaram no altar. Mas isso é história para outro dia, o importante agora é a promessa de Beleza, que ficava cada dia mais difícil de cumprir. Botequeiro afamado, Beleza não perdia tempo. Logo cedo já tomava uma no bar de Dedé para clarear as vistas e trabalhar melhor, na hora do almoço uma dose só, para abrir o apetite, e no final da tarde a parada era obrigatória, que ninguém é de ferro! Mas a vida de Beleza piorou quando dona Ar...

DINHEIRO

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  Gosto muito de conversar. Tanto que a garganta dói quando encontro alguém que gosta de ouvir. Podem rir, mas a verdade é que sou meio tagarela. E gosto de falar de tudo. A depender de como é apresentado, qualquer assunto pode se tornar interessante. Numa dessas tagarelices me vi conversando com um bom ouvinte sobre “riqueza”. A prosa tomou esse rumo quando começamos a falar sobre nossa dificuldade em economizar algum dinheiro. Creio que somos gastadores compulsivos, ou algo parecido com isso. Não aguentamos ver a palavra PROMOÇÃO ou FRETE GRÁTIS em algum site de vendas e já estamos pensando em trocar de celular, comprar um relógio que faz ligações ou um livro ensinando como se tornar um milionário. E assim, passamos a vida no aperto e sonhando com o próximo “Black Friday”. Conversa vai, conversa vem e, numa espécie de filosofia de boteco, apesar de estarmos sóbrios, deduzimos que dinheiro não é riqueza. Talvez por termos pouco e não querer nos admitir pobres, a conclusão seja m...

A ÚLTIMA HORA

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  Quando os sinos tocam, anunciando a última despedida, o peito estremece em resposta a cada badalada. Como um eco que se repete em dor terrível, e de novo, e de novo, cada vez mais forte. Os toques fúnebres dos sinos causam a dor de um ferro quente a tocar a pele viva. O homem tenta entender a morte, como condição natural e inevitável, mas ver um pai enterrar seu filho foge de toda explicação possível. Cantos e orações não consolarão os corações em prantos, nem mitigarão a dor dos que lhe viram morrer bem antes da hora. As flores que irão lhe acompanhar em uma última jornada, ironicamente irão murchar bem antes do tempo, indicando a derradeira hora de se despedir. Em breve seu corpo não estará mais aqui e o som da terra batendo em seu caixão será a sua despedida final. Lágrimas e soluços incontroláveis formarão um misto de dor e incompreensão terrível. Por que morreste tão jovem? Perguntarão os vivos, sabendo não haver respostas certas a tamanha indagação. A vida, que se encerro...

ENFIM AGOSTO

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  ATÉ QUE ENFIM Agosto chegou. Já era mais que hora, diga-se de passagem! E começo a contar nos dedos à chegada do grande Dia (com D maiúsculo para denotar a importância de tal data). Espero que desse domingo ao outro passe bem devagar, para que eu possa saborear a espera. Como uma criança tomando um sorvete retardando a chegada na casquinha. Sei que ainda sou novo no assunto e meus direitos ainda estão germinando em um casulo especial, mas não quero perder um segundo sequer. Segundo me disse o Google, tudo começou nos Estados Unidos, lá pelo início do século XX, por uma menina chamada Sonora e logo depois se espalhou pelo país e em outras partes do mundo. O brasileiro, que não é besta, copiou a ideia lá pela década de cinquenta e criou a data comemorativa por essas bandas com objetivos comerciais. Bem! Não sei ao certo quem instituiu data tão especial nem por qual motivo, mas, se está na lei, exijo meus direitos. A começar quero um café da manhã sortido e recheado, com bolo ...

MAGIA

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  Era uma segunda-feira do mês de Março de 1988. A manhã era fresca e o dia bonito. Havia nuvens no céu, mas não chovia. A velha mangueira, com seus frutos ainda verdes e seus galhos sofridos por ataques de pedradas de crianças esfomeadas, nos observava. O chão era de terra e disforme, estava úmido e ainda exalava o cheiro de terra molhada. Crianças se enfileiravam diante daquele prédio branco. Camisas brancas e calças de tergal. Meninas usavam saias do mesmo tergal azul escuro e sapatos pretos. Muitos rostos diferentes e roupas sempre iguais. Eu, menino mirrado, com olhos de choro e coração acelerado, era o último da fila dos menores. O último dos últimos. Após cantarem o Hino Nacional e algumas canções mais animadas, crianças marchavam em fila rumo às suas salas. Com o coração na boca eu, em marcha acelerada, seguia rumo à minha casa. Eu fugi da escola em meu primeiro dia de aula. Após fugir mais uma ou duas vezes antes de entrar na escola, meu irmão mais velho que eu, me peg...

O ÚLTIMO SORRISO

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  No dia em que a saudade bateu me veio uma lembrança que ainda doía. “Aproveite os dias que tem. Abraça-o, brinque, beije-o, pois após a partida, nada restará, a não ser a saudade que não será pequena. Mas lembre-se que qualquer um de nós poderá ir antes dele.” Dissera-me um amigo, que, ironicamente também já partiu. Uma doença acometeu meu velho pai, o impedindo de engolir qualquer coisa. Todo alimento tinha que ser colocado diretamente em seu estômago, através de uma sonda. O desejo de sentir o gosto de um café ou um gole de água irradiava em seu olhar, mas calava em sua boca. “Estou bem”, era a resposta de sempre. Ele não sabia, mas eu e meus irmãos sabíamos que o câncer o levaria, mas não iríamos permitir que sessões de quimioterapia o consumissem na ilusão de mais dias. A vida tem que valer a pena a todo instante. Seja longa ou curta, mas que seja vida. Munido de uma crença que me perseguia e de uma voz que não calava, tentei ser melhor do que eu era. Pegava em suas mãos,...

OLHAR

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  Estava trafegando pela pequena cidade onde moro, quando avistei uma mulher que andava pela rua. Apesar de invisível ela chamava a atenção. Tentarei explicar. Suas características físicas e suas vestes não a deixariam passar despercebida por onde andasse. Era alta e corpulenta, calcanhares e tornozelos grossos. Uma faixa amarrada em uma das pernas demonstrava que alguma doença ou ferimento lhe acometia. Suas roupas eram simples e surradas, mais simples que vestimentas comuns que a gente se acostuma a ver em pessoas que nos batem à porta para pedir um trocado ou algo para comer. Demonstrava pobreza extrema. Vestia apenas uma blusa que cobria seu tronco e uma saia sem cor que chegava um pouco abaixo dos seus joelhos. Não usava nenhum tipo de acessório ou ornamento típicos das mulheres de nosso tempo. Não tinha unhas pintadas ou brincos nas orelhas. Seus cabelos eram duros e espetados, sem nenhum trato. Sua pele era negra e seus braços e pernas eram cinzas e ressecados pelo sol e poe...

PARTIDA

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  Ele ainda não sabia a falta que uma mãe faz na vida de um homem, pois ainda era um menino. Nem que “o Deus lhe abençoe” em resposta à benção pedida e um abraço apertado seriam os últimos registros de carinho que seu corpo receberia nos próximos cinco ou seis anos. O retorno ia se mostrar mais difícil que a partida. Seu coração acelerava ao sentir que a dor de sua mãe extrapolava o peito e parava no meio da garganta, como um nó estrangulando seu choro. Mas era chegada a hora de partir e os sentimentos de uma mãe que sofre não mudariam a decisão do menino que estava prestes a se tornar um homem. Além de alguns documentos e poucas peças de roupas, levava uma pequena vasilha de lata com frango seco e farinha. Tardaria a perceber que a farofa preparada por sua mãe, assim como aquele último abraço, seria o melhor que a vida lhe daria em anos. Um ônibus velho lhe esperava para fazer a travessia entre dois mundos opostos em tudo, menos na provação. O norte abandonava seus filhos em pobre...

RESSIGNIFICAR

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  Existe um lugar em que tudo muda de significado. Você reclama (eu também) do café que está frio, do clima que está quente e da chuva que não para. Um colchão diferente te impede de dormir e a derrota de seu time te faz ter raiva de um amigo. Banalidades que perdem o sentido em um leito de hospital. Um homem senil quer apenas sentir o sabor de um gole de água fria escorrendo em sua garganta. Uma mulher ao lado, de idade semelhante, só quer que sua dor pare por um instante. A morte de alguém em uma sala distante é anunciada em meio ao desespero dos que não tiveram tempo de se despedir. Tem momentos que o relógio parece parar. O homem é pequeno demais para se dar conta da vida que desperdiça. Qual é o sentido de se trocar o abraço de um filho por um gole de cachaça no final de um dia duro de trabalho? O álcool não aquece o coração de ninguém, apenas engana uma mente tola. Mas um filho pode agasalhar um pai, não uma noite, mas durante uma vida inteira. Quantos dias de trabalho sã...

VAZIO

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  Uma vez me ensinaram que a essência do copo está no vazio que carrega dentro de si e que os números sem o conceito de vazio são incompletos, sendo impossível fazer cálculos sem o zero (vazio). Creio que o vazio transcenda a copos e números, habitando também os corações humanos. Pode soar estranho, mas no meu entendimento os corações vazios são as melhores companhias, pois pessoas cheias de si e que acreditam ser completas tendem a uma chatice entediante. Prefiro os que precisam de mim, que me ensinam, mas também aprendem com minha presença. Prefiro os que sempre deixam um espaço vazio em seus corações para que outros possam preencher. Prefiro a copos que se possam encher e a bancos em que se possam sentar. Ao passar pela praça onde vivi, seguindo o cortejo que acompanhava o corpo sem vida de meu pai, observei o banco onde ele se sentava todos os dias. O banco é seu copo vazio, onde outros podem se sentar, sentir o sol e se servirem da vida, como ele sempre fez. Sei que não co...

FOTOGRAFIA

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  Dias atrás trabalhei com um novo colega. Novo apenas por ter sido a primeira vez que trabalhamos juntos, porém, mais velho e com mais tempo na corporação do que eu. Contamos histórias relacionadas ao nosso trabalho, problemas pessoais relacionados à saúde de entes queridos e sobre a vida de maneira geral. Os assuntos foram muitos, mas o cerne das questões era apenas um: “como o homem tem que ser homem”. Deixaremos o machismo que a expressão possa carregar de lado. Muitos irão me entender. Discutíamos o quanto temos que ser fortes diante das adversidades, que não são poucas. Assumir os fardos que a vida nos impõe, para tornar mais leve a vida dos nossos. Ele disse algo sobre como assumir e resolver problemas ao invés de leva-los a pessoas mais frágeis do que nós. Ser homem.  A noite, após tensas ligações, ele me disse que a mãe de sua esposa acabara de falecer. Com paciência e firmeza ele tranquilizou os seus, resolveu problemas, assumiu o fardo e fez o que deveria fazer. Foi...

FAZ DE CONTA

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  Em meu tempo de criança, os quintais eram nosso mundo, onde tínhamos tudo e éramos tudo que queríamos ser. Uma camisa cobrindo o rosto e uma toalha em volta do pescoço eram o suficiente para nos transformarmos. E assim, subir em árvores e muros ficava muito fácil, pular era mágico e por um segundo nos sentíamos com poderes especiais, como os heróis da TV. Um monte de areia molhada, uma coroa de bicicleta e um pouco de imaginação eram o suficiente para termos uma nave espacial ou estarmos em um circuito de fórmula 1 e eu, lógico, era o Senna. Meias velhas viravam bolas de futebol, pedaços de pau viravam espadas e pistolas e o que era lixo para outros era fantasia para nós em nosso mundo de faz de conta. Nas casas faltavam um pouco de tudo. Água, comida e roupas eram escassas, só não faltavam crianças alegres e desesperadas. Os quintais não tinham muros e as crianças não tinham limites. O mundo muda e a gente cresce, talvez o mundo permaneça igual, só a gente que envelhece mesm...

CAMINHADA

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  Dias atrás eu estava a dar banho em meu pai, como parte de uma triste rotina que se fez presente em nossas vidas nos últimos meses e como sempre fal amos de coisas aleatórias: o tempo, a política e repetíamos velhas histórias do passado quando ele de repente me falou: “Essa noite sonhei que voltei a andar e minha alegria foi tanta que cheguei chorar.” Senti meu coração apertado e meus lábios contraídos, parei por um instante, mas não chorei nem nada disse. Às vezes me pego lembrando de um tempo passado, eu ainda menino e meu pai já velho, como sempre pareceu ser. Acordávamos com o escuro, como ele dizia, e quando o sol se mostrava disposto a despertar os homens, já estávamos a meio caminho do nosso destino. Nos braços e ombros levávamos enxadas, sacos com sementes e um membro da família que ainda não podia caminhar, em nossas cabeças levávamos sonhos incertos, nos corações esperança e angústias. Caminhávamos cerca de dez quilômetros para cumprir a única missão certa que era dad...