AS CURVAS DA VIDA


 


Às vezes me pergunto o que é viver de verdade. Confesso que não tenho resposta pronta que satisfaça minhas dúvidas. Mesmo assim, vasculho minha mente e busco lembranças do passado distante, tentando entender onde vivi de verdade e por que sou quem sou, fazendo papel de psicólogo de mim mesmo. Recordo-me que as regras eram muitas e sei que as segui quase sempre. Os adultos diziam para não brincar em muros, não subir em árvores e não andar no escuro. Aprendi que havia perigo de cair e havia cobras e fantasmas no escuro. Mas não foi fugindo da altura e do breu que venci meus medos. Os braços tremiam, mas eu subia nos galhos mais altos. Meu coração apertava e a barriga gelava mas, numa madrugada fria, eu andei até o escuro do quintal em busca dos fantasmas que habitavam minha mente, olhei fixamente pra o escuro e ele olhava de volta para mim e meus medos foram embora, juntamente com os fantasmas que nunca vi.

Creio que demorei de crescer. Enquanto colegas de minha idade se arrumavam para festas e passeios na praça, eu ainda brincava sozinho no quintal de casa. E, já homem feito, tomei banho de chuva e entrei em rios lamacentos, agindo como criança. Sei que obedeci mais que desobedeci, mas por ter uma cabeça pequena e os dias serem muitos, minhas ideias só se prendem às regras que quebrei. Sobrevivi em estradas retas, mas vivi de verdade nas curvas da vida que decidi dobrar.

Creio que agora, enfim, cresci. Também à beira dos 40 já era mais que tempo disso acontecer. A hora de ditar regras e fazer papel de adulto chegou. Me preparo para impedir que alguém se coloque em perigo no alto de muros e árvores ou na escuridão da noite. É hora de assumir a mais bela curva da vida e viver fora de mim.

Welington Carlos


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