CAMINHADA

 

Dias atrás eu estava a dar banho em meu pai, como parte de uma triste rotina que se fez presente em nossas vidas nos últimos meses e como sempre falamos de coisas aleatórias: o tempo, a política e repetíamos velhas histórias do passado quando ele de repente me falou: “Essa noite sonhei que voltei a andar e minha alegria foi tanta que cheguei chorar.” Senti meu coração apertado e meus lábios contraídos, parei por um instante, mas não chorei nem nada disse.

Às vezes me pego lembrando de um tempo passado, eu ainda menino e meu pai já velho, como sempre pareceu ser. Acordávamos com o escuro, como ele dizia, e quando o sol se mostrava disposto a despertar os homens, já estávamos a meio caminho do nosso destino. Nos braços e ombros levávamos enxadas, sacos com sementes e um membro da família que ainda não podia caminhar, em nossas cabeças levávamos sonhos incertos, nos corações esperança e angústias. Caminhávamos cerca de dez quilômetros para cumprir a única missão certa que era dada aos homens do antigo sertão: trabalhar na roça. Como sinais de DNA transmitidos de pais para filhos, rostos ressecados, mãos calejadas e pés rachados atestavam nossa condição. Não tão rápido como hoje o dia passava (tempos difíceis passam mais devagar) e o negrume da noite ocupava todos os espaços. Apenas um candeeiro aceso não afastava todos os fantasmas que habitavam a terra e não ofuscava nem uma estrela do céu. Aos corpos cansados um lençol estendido no chão era dado como cama e um braço embaixo da cabeça era meu travesseiro. Nem era preciso fechar os olhos para nada ver e sonhar.

Hoje os tempos são outros. Luzes diversas clareiam de tal maneira que nem vejo mais tantas estrelas no céu. Os fantasmas que nos assombram não se escondem mais com a luz do dia e meu pai já não pode mais caminhar sozinho.

Welington Carlos

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