FOTOGRAFIA
Dias atrás trabalhei com um novo colega. Novo apenas por ter sido a primeira vez que trabalhamos juntos, porém, mais velho e com mais tempo na corporação do que eu. Contamos histórias relacionadas ao nosso trabalho, problemas pessoais relacionados à saúde de entes queridos e sobre a vida de maneira geral. Os assuntos foram muitos, mas o cerne das questões era apenas um: “como o homem tem que ser homem”. Deixaremos o machismo que a expressão possa carregar de lado. Muitos irão me entender. Discutíamos o quanto temos que ser fortes diante das adversidades, que não são poucas. Assumir os fardos que a vida nos impõe, para tornar mais leve a vida dos nossos. Ele disse algo sobre como assumir e resolver problemas ao invés de leva-los a pessoas mais frágeis do que nós. Ser homem.
A noite, após tensas ligações, ele me disse que a mãe de sua esposa acabara de falecer. Com paciência e firmeza ele tranquilizou os seus, resolveu problemas, assumiu o fardo e fez o que deveria fazer. Foi homem. Essa morte seria uma perca inestimável para seus familiares, mais uma notícia para os programas de rádio do dia seguinte e apenas um número para o falido estado brasileiro. Mais uma vítima do COVID-19.
No dia seguinte, já em casa, a tensão era visível em meu rosto. Preocupações com a saúde de meu pai, notícias de amigos e velhos conhecidos com seus quadros de saúde agravados por conta desse vírus destruidor, me deixavam apreensivo. Minha esposa, percebendo minha aflição, se angustiou também. Com lágrimas nos olhos me abraçou. A confortei de volta, tentando mostrar força, disse-lhe que tudo ficaria bem e logo a vida voltaria ao normal.
Já no quarto, sem muita atenção liguei a TV e foleei um
livro, mas não li nem nada assisti de verdade. Quando minha esposa entra no
quarto e me diz: “veja só o que veio nos visitar”. Mostra-me uma fotografia recém-tirada
que ao vê-la senti uma leveza no ar. Ao fundo um quintal ofuscado pela vidraça
e focado no meio uma esperança pousada na persiana da janela. Para os
cientistas, um Tettigoniidae da mesma
ordem dos gafanhotos. Para quem não vê, apenas um inseto. Para quem acredita é
muito mais que isso, é representação viva da confiança, a crença nos dias
melhores que virão, é o divino nas pequenas coisas. A gente não pisa na
esperança, nem a maltrata, a gente deixa subir por nossos dedos e sente seu
lento caminhar em nosso braço. A colocamos em uma árvore ou em um lugar seguro,
pois a esperança não pode morrer. Não sei vocês, mas eu vejo significado em
pequenas coisas.
Welington Carlos

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