MAGIA


 


Era uma segunda-feira do mês de Março de 1988. A manhã era fresca e o dia bonito. Havia nuvens no céu, mas não chovia. A velha mangueira, com seus frutos ainda verdes e seus galhos sofridos por ataques de pedradas de crianças esfomeadas, nos observava. O chão era de terra e disforme, estava úmido e ainda exalava o cheiro de terra molhada. Crianças se enfileiravam diante daquele prédio branco. Camisas brancas e calças de tergal. Meninas usavam saias do mesmo tergal azul escuro e sapatos pretos. Muitos rostos diferentes e roupas sempre iguais. Eu, menino mirrado, com olhos de choro e coração acelerado, era o último da fila dos menores. O último dos últimos. Após cantarem o Hino Nacional e algumas canções mais animadas, crianças marchavam em fila rumo às suas salas. Com o coração na boca eu, em marcha acelerada, seguia rumo à minha casa. Eu fugi da escola em meu primeiro dia de aula.

Após fugir mais uma ou duas vezes antes de entrar na escola, meu irmão mais velho que eu, me pegou pelo braço e conduziu diretamente para minha futura sala de aula: o antigo “prezinho”. Fui recebido por uma professora de pele morena, bonita e sorridente, que veio falar comigo e me apresentou à turma. Tia Nenzinha foi quem primeiro me mostrou que havia um mundo fora dos limites da minha rua. Até hoje quando a vejo e paro para conversar, lembramos dessas histórias, sorrimos juntos e ela se orgulha em me dizer que  foi a primeira a me ensinar as letras de meu nome. Mais que isso, ela me abriu as portas do infinito. Na sala havia carteiras grandes, com os bancos acoplados às mesas nas quais cabiam duas crianças. Logo fui posto em uma delas, ao lado de quem viria a ser meu primeiro amigo fora dos limites da praça onde eu me criei. Mateus era o oposto de mim. Eu era quieto e envergonhado, ele era conversador e pirracento. Eu era medroso e temia tudo, ele jogava minha borracha nos outros para que pensassem que fui eu. Ele era o que eu queria ser, mas tinha medo. E apesar do tempo e as circunstâncias terem nos afastado, ainda sinto que é um dos melhores amigos que tenho. Depois de muito tempo, a gente já adultos, descobrimos que nossos pais eram grandes amigos também, que depois da velhice, passaram a se encontrar. Sentavam juntos na frente de casa e conversavam muito, lembrando das suas velhas histórias também. A escola trouxe o mundo para dentro de mim. Saber que eu poderia pegar livros e levar para casa era maravilhoso. Minha irmã, que trabalhava na secretaria, me incentivava a ler as histórias de João e Maria, O Gato de Botas e Alice no País das Maravilhas. Havia muito mais naquele prédio que paredes e janelas de vidro. Era o mundo inteiro em um só lugar.

Anos depois, em uma sexta-feira de um mês qualquer. Crianças suadas e ainda agitadas adentravam a sala da 4ª Série. Parecia que o recreio ainda não acabara. As brincadeiras ainda continuavam e falávamos de quem pegou quem no pega-pega, de quem caiu durante a incessante correria ou do gol que foi marcado no jogo de bola. Tia Rosinha entrava com algo na mão e colocava em cima da mesa para que todos pudessem ver. Pediu para que pegássemos caderno, lápis e borracha. Um quadro com um barco amarelo em meio a um lago azul formava uma bela paisagem. Pediu silêncio. Devíamos olhar para essa imagem fixamente, sentir as emoções e olhar para dentro de nós mesmos. Estávamos hipnotizados com aquela aula diferente. O silêncio me fazia ouvir as batidas do coração. Lápis escorregadios transcreviam nossas emoções em papéis amarelados. Eu guiava aquele barco amarelo em um oceano azul em meio a vento e ondas. Era marinheiro e capitão. Era o que eu queria ser, sem nunca ter visto o mar nem mesmo um barco de verdade. Era muito para um menino de apenas nove anos. Infelizmente a magia nunca mais se repetiu, nem no colégio durante o ensino fundamental ou médio. Nem nas aulas da graduação do Ensino superior. A escola ensinou muito do que vem de fora, do mundo exterior, mas pouco do que vem de dentro de nós mesmos.

Welington Carlos

 

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