O ÚLTIMO SORRISO
No dia em que a saudade bateu me veio uma lembrança que ainda doía. “Aproveite os dias que tem. Abraça-o, brinque, beije-o, pois após a partida, nada restará, a não ser a saudade que não será pequena. Mas lembre-se que qualquer um de nós poderá ir antes dele.” Dissera-me um amigo, que, ironicamente também já partiu.
Uma
doença acometeu meu velho pai, o impedindo de engolir qualquer coisa. Todo
alimento tinha que ser colocado diretamente em seu estômago, através de uma
sonda. O desejo de sentir o gosto de um café ou um gole de água irradiava em
seu olhar, mas calava em sua boca. “Estou bem”, era a resposta de sempre. Ele
não sabia, mas eu e meus irmãos sabíamos que o câncer o levaria, mas não
iríamos permitir que sessões de quimioterapia o consumissem na ilusão de mais
dias. A vida tem que valer a pena a todo instante. Seja longa ou curta, mas que
seja vida.
Munido
de uma crença que me perseguia e de uma voz que não calava, tentei ser melhor do
que eu era. Pegava em suas mãos, enquanto poucos passos desequilibrados eram
dados. “Vamos! Só mais uma volta.” Eu lhe dizia, como um pai que ensina um
filho a caminhar. E no esforço prolongado, acreditava, em vão, que no dia
seguinte seria mais fácil. Um algodão molhado em sua boca e uma história
qualquer era o que podíamos dar para ludibriar os seus anseios. Meu pai contava
os dias para chegar as sextas-feiras, e os minutos para chegar as quatro horas.
Seu barbear e seus banhos seriam tarefas de seus filhos nos finais de semana. E
foi no quintal da casa, sentado em uma cadeira de rodas, de barba feita, sob a
luz de um sol poente, que lhe contei um segredo. O primeiro segredo que contei
ao meu pai.
Quando
suas forças foram embora levaram consigo o sol que lhe aquecia todas as manhãs
e tardes. Levaram a companheira que fazia o papel de suas pernas. Levaram seu
banho quente embaixo de um chuveiro. Mas deixaram sua gratidão. “Estou bem.”
Ainda dissera em sua última tarde. Era uma quarta-feira quando um bisneto,
sempre cuidadoso, com a inteligência que só uma criança de dois anos é capaz de
ter, ou obedecendo a uma ordem divina, trouxera-lhe um pequeno pedaço de
chocolate e lhe pôs na boca. “Está tão gostoso”, disse em seu último sorriso.
Welington Carlos

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