OLHAR


 

Estava trafegando pela pequena cidade onde moro, quando avistei uma mulher que andava pela rua. Apesar de invisível ela chamava a atenção. Tentarei explicar. Suas características físicas e suas vestes não a deixariam passar despercebida por onde andasse. Era alta e corpulenta, calcanhares e tornozelos grossos. Uma faixa amarrada em uma das pernas demonstrava que alguma doença ou ferimento lhe acometia. Suas roupas eram simples e surradas, mais simples que vestimentas comuns que a gente se acostuma a ver em pessoas que nos batem à porta para pedir um trocado ou algo para comer. Demonstrava pobreza extrema. Vestia apenas uma blusa que cobria seu tronco e uma saia sem cor que chegava um pouco abaixo dos seus joelhos. Não usava nenhum tipo de acessório ou ornamento típicos das mulheres de nosso tempo. Não tinha unhas pintadas ou brincos nas orelhas. Seus cabelos eram duros e espetados, sem nenhum trato. Sua pele era negra e seus braços e pernas eram cinzas e ressecados pelo sol e poeira. Quem a visse lhe daria o dobro ou triplo da idade que realmente tivesse. Sem perspectivas no olhar, seu sentimento era de pequenez ante o ambiente que lhe envolvia. Seu espírito parecia derrotado e seu corpo apenas sobrevivia. Seu andar era pesado e vagaroso, parecendo que seu destino era apenas o próximo passo. Tudo isso somado a uma criança que carregava nos braços, fazia com que todos ao redor a olhassem.

Ver de verdade é transcender o que está diante dos olhos. É olhar pra dentro do ser e para fora do tempo em que se vive. Essa mulher é invisível à sociedade em que vive. Foi assim com seu pai e seu avô e outros que os antecederam, e assim será com a filha que carrega no colo se ninguém lhe estender algo mais que olhares desconfiados. Ela não merece isso, mesmo assim carrega o ciclo reprodutor de misérias da raça humana. Como um tapete onde se esconde o próprio lixo, lançamos a ela nossos olhares odiosos e cheios de preconceitos. Alguém arrancou os seus antepassados do espaço e do tempo onde viviam e subjugou seus descendentes a uma vida sem chão e sem lugar. O estado não chega a pessoas como ela, nem hospitais, nem escolas ou programas sociais. Ela não sabe que têm direitos e fingem que ela não existe. O estado sou eu e você, que estende a mão para pegar, mas esconde quando pode dar.

Welington Carlos

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