PARTIDA


 

Ele ainda não sabia a falta que uma mãe faz na vida de um homem, pois ainda era um menino. Nem que “o Deus lhe abençoe” em resposta à benção pedida e um abraço apertado seriam os últimos registros de carinho que seu corpo receberia nos próximos cinco ou seis anos. O retorno ia se mostrar mais difícil que a partida. Seu coração acelerava ao sentir que a dor de sua mãe extrapolava o peito e parava no meio da garganta, como um nó estrangulando seu choro. Mas era chegada a hora de partir e os sentimentos de uma mãe que sofre não mudariam a decisão do menino que estava prestes a se tornar um homem. Além de alguns documentos e poucas peças de roupas, levava uma pequena vasilha de lata com frango seco e farinha. Tardaria a perceber que a farofa preparada por sua mãe, assim como aquele último abraço, seria o melhor que a vida lhe daria em anos. Um ônibus velho lhe esperava para fazer a travessia entre dois mundos opostos em tudo, menos na provação. O norte abandonava seus filhos em pobreza e sofrimento. Os filhos do norte abandonavam seus pais em dor e angústia. O frio que queima os ossos e a solidão que esfola a alma eram o que lhe esperava em seu destino. Mas ele não sabia. Sabia apenas que o sol que queima o rosto e a terra que esfola as mãos ficariam para trás. Como medir a tristeza de um homem, que em busca de uma vida melhor, deixou para trás seu povo, seus costumes e suas raízes e não encontrou destino melhor em um mar de prédios e gente estranha? Seriam meses sem dar notícias e anos sem ver o rosto de alguém que realmente importava. Assim começava a sina de quem deixava para trás o nordeste desolado em busca de uma vida melhor no sudeste de sonhos e riquezas sem limites. O sonho de uma vida moderna escravizou o corpo e o espírito de um menino sonhador. O menino virou homem e o homem virou escravo do seu sonho.

Welington Carlos


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