VAZIO


 

Uma vez me ensinaram que a essência do copo está no vazio que carrega dentro de si e que os números sem o conceito de vazio são incompletos, sendo impossível fazer cálculos sem o zero (vazio). Creio que o vazio transcenda a copos e números, habitando também os corações humanos. Pode soar estranho, mas no meu entendimento os corações vazios são as melhores companhias, pois pessoas cheias de si e que acreditam ser completas tendem a uma chatice entediante. Prefiro os que precisam de mim, que me ensinam, mas também aprendem com minha presença. Prefiro os que sempre deixam um espaço vazio em seus corações para que outros possam preencher. Prefiro a copos que se possam encher e a bancos em que se possam sentar.

Ao passar pela praça onde vivi, seguindo o cortejo que acompanhava o corpo sem vida de meu pai, observei o banco onde ele se sentava todos os dias. O banco é seu copo vazio, onde outros podem se sentar, sentir o sol e se servirem da vida, como ele sempre fez. Sei que não compreendo bem o mundo à minha volta, muito menos consigo explicar os sentimentos que as perdas causam nos corações humanos, mas pretendo dar sentido à falta que um pai faz. O vazio que fica tem a proporção da intensidade da vida de quem nos deixa. Bebi do copo da vida de meu pai e ajudei a encher de vida seus instantes finais. Ver seu banco vazio me fez chorar mais do que a visão de seu corpo em um caixão. Meu pai habita ali e não sob um monte de terra fria e sem vida, nem dentro de uma caixa de madeira sem histórias pra contar.

Welington Carlos


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